Recursos para prevenir incêndios florestais têm queda de 17% em 2026. Gestão cita corte efetuado pelo Congresso, mas também fez reduções
A queda de 17% no orçamento federal para prevenção a incêndios florestais em 2026 mostra que a política pública ainda é focada em combater danos, não em evitá-los, segundo especialistas, Além de ter recebido menor previsão no orçamento elaborado pelo governo, a prevenção a queimadas também sofreu corte durante a tramitação da Lei Orçamentária no Congresso.
Especificamente para a prevenção de incêndios florestais, o orçamento previsto para 2026 é de R$ 495,8 milhões, o menor dos últimos três anos do terceiro mandato do presidente Lula. Em comparação a 2025, quando a previsão inicial era de R$ 596,9 milhões, o corte é de R$ 101 milhões.
Em 2023, o valor desta mesma rubrica chegou a R$ 638 milhões, um aumento de 63,15% em relação a 2022, último ano do governo Bolsonaro. No entanto, em 2024, já houve queda para R$ 513 milhões no recurso para essas ações. Em 2025, a leve recuperação levou a R$ 596,9 milhões no orçamento inicial, antes de cair novamente em 2026.
O MMA informou que apresentou uma solicitação inicial no valor de R$ 341 milhões para as ações 214M, 214N e 214P (códigos que representam a fiscalização e prevenção a incêndios florestais), mas, “em função do contexto de restrição fiscal”, o próprio governo conseguiu incluir, de fato, R$ 104 milhões.
Além desta redução, a pasta destaca que, durante a tramitação legislativa, o Congresso Nacional promoveu redução de R$ 11.501.427,00 no orçamento da ação 214P (Fiscalização e Combate a Incêndios), integrante do orçamento do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Por esse motivo, o orçamento inicial das três ações fechou em R$ 495,8 milhões para este ano.
Impacto direto
Um servidor de carreira do Ibama no Amazonas afirmou que a redução orçamentária terá impacto direto em um ano no qual os brigadistas esperam aumento no número incêndios no estado.
“Ano passado ainda fizemos muito com o orçamento que tínhamos, mas o que nos salvou foi que 2025 foi um ano atípico, com muitas chuvas. Não tivemos muitas ocorrências. Mas é diferente desse ano, porque a previsão é estar mais quente no verão, com mais seca”, comenta ele, que preferiu não se identificar.
Os maiores impactos devem ser no custeio de operações. O profissional explica que os servidores precisam se deslocar com frequência a áreas distantes para atuar na prevenção e combate a incêndios no estado, e que o custo é alto. “Se não tem dinheiro, não tem como atender”, pontua.
Falta de prioridade
Para a doutora em Ecologia Erika Berenguer, que estuda degradação florestal, desmatamento e queimadas, a redução do orçamento mostra que os incêndios ainda são tratados como um problema emergencial, e não estrutural. Segundo ela, a queda nos recursos ocorre justamente após anos de secas extremas, como em 2023 e 2024, quando a Amazônia viveu recordes de queimadas e cidades como Manaus ficaram semanas sob fumaça.
“Essa redução no orçamento é uma forma completamente inadequada de lidar com os incêndios. Eles ainda são vistos como uma emergência, como um problema agudo, e não como um problema crônico. Enquanto não houver essa mudança de entendimento, vamos continuar vivendo crises como as de 2023 e 2024”, diz.
Erika também alerta que a diminuição recente no número de incêndios não pode ser usada como justificativa para reduzir investimentos. Em 2025, os focos de calor na Amazônia caíram cerca de 70% em 2025 em comparação com o ano anterior, segundo dados do Observatório Regional Amazônico (ORA). No Amazonas, a queda foi de 82%, o maior percentual já registrado.
“Não é porque 2025 foi um ano menos seco que a gente não precisa investir. Pelo contrário, é preciso fortalecer continuamente as brigadas, o treinamento e, principalmente, as ações de prevenção”, afirma a pesquisadora.
Investir na prevenção
Mestre em sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica, Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), também avalia que qualquer diminuição nos recursos é preocupante diante da dimensão do problema. Para ela, a redução ocorre num momento em que os resultados positivos no número de queimadas podem gerar uma falsa sensação de segurança, quando o correto seria consolidar um fluxo permanente de investimento.
“Como 2025 foi um ano mais úmido, pode passar a impressão de que não precisa mais investir, mas é justamente o contrário. A prevenção precisa de um fluxo contínuo e crescente de recursos. Quanto mais se investe em engajamento das comunidades, monitoramento e infraestrutura, menor será o impacto quando vier um ano anômalo, muito seco”, destacou.
Para Ane, o investimento em prevenção deveria ser contínuo e crescente, independentemente das variações climáticas anuais. “É preciso investir em engajamento das comunidades, monitoramento, infraestrutura e fortalecimento institucional. Quanto mais se investe antes, menor será o impacto quando chegar um ano fora do normal”, conclui.
Recursos adicionais
O MMA ressalta que “ao longo do exercício de 2026, recursos adicionais poderão ser realocados para as ações de fiscalização ambiental e combate a incêndios, conforme a evolução das necessidades, o cenário e risco climático e as possibilidades orçamentárias”.
A pasta também afirmou que o combate ao desmatamento e aos incêndios florestais constitui prioridade máxima do Governo Federal, do MMA e de suas entidades vinculadas, Ibama e ICMBio.
“Como evidência dessa prioridade, observa-se que, entre agosto de 2024 e julho de 2025, a taxa de desmatamento na Amazônia Legal apresentou redução de 11,08% em relação ao ciclo anterior, atingindo o menor patamar desde 2014. Ademais, pela primeira vez na história todos os biomas contam com Planos de Prevenção e Controle do Desmatamento (PPCDs)”.
